quinta-feira, 27 de setembro de 2012

domingo, 16 de setembro de 2012

Ao redor uma platéia gargalhava
E eu sufocando com o escarro interrompido (de sempre)
A neurose muda a lente e funciona como um raio-x demoníaco
Cada sorriso de cada boca maldita se voltava para mim como 3/4 do inferno.
Saltando entre precipícios com a intenção pouco latente de não chegar
Há a garrafa que faz confortável o arame farpado em que deslizo
Com a graciosidade das crianças psicopatas.
E só existe beleza no sangue que pulsa com a dor
E o escuro, o profundo, a loucura, o gole seco, a gozada apática
As estruturas copiadas.
Buscar uma corrente no Mar Morto
Trilhar um caminho costurado com passos bêbados
Em uma lama que se fecha apagando as minhas pegadas.

Lá Lach

quinta-feira, 26 de julho de 2012

terça-feira, 24 de julho de 2012

segunda-feira, 4 de junho de 2012

À Mesa com Artaud


À Mesa

Abandonem as cavernas do ser. Venham. O espírito respira para fora do espírito. É tempo de deixarem suas moradas. Cedam ao Todo-Pensamento. O Maravilhoso está na raiz do espírito.
Nós estamos por dentro do espírito, no interior da cabeça. Idéia, lógica, ordem, Verdade (com V maiúsculo), Razão, deixamos tudo isso ao nada da morte. Cuidado com suas lógicas, Senhores, cuidado com suas lógicas, não sabem até onde pode nos levar nosso ódio à lógica.
E só por um desvio da vida, por uma parada imposta ao espírito, que se pode fixar a vida na sua fisionomia dita real, mas a realidade não está aí. Por isso é desnecessário, a nós que aspiramos a uma certa eternidade surreal, que faz muito tempo já não nos consideramos mais no presente e que nos assemelhamos a nossas sombras reais, é desnecessário virem nos aborrecer em espírito.
Quem nos julga não nasceu para o espírito, para esse espírito que desejamos expressar e que está, para nós, fora do que vocês chamam de espírito. Não precisam chamar nossa atenção para as cadeias que nos prendem à petrificante imbecilidade do espírito. Descobrimos um bicho novo. Os céus respondem à nossa atitude de insensato absurdo. Esse seu hábito de voltar as costas às questões não impedirá que, no dia certo, os céus se abram e uma nova língua se instale no meio das suas elucubrações imbecis, quero dizer, das elucubrações imbecis dos seus pensamentos.
Há signos no Pensamento. Nossa atitude de absurdo e morte é a da maior boa-vontade. Através das fendas de uma realidade doravante inviável, fala um mundo voluntariamente sibilino.
Sim, eis agora o único uso ao qual poderá prestar-se a linguagem, como instrumento para a loucura, para a eliminação do pensamento, para a ruptura, dédalo dos desregramentos e não como um DICIONÁRIO para o qual certos patifes das imediações do Seria canalizam suas contradições espirituais.




(Antonin Artaud, em um dos "manifestos e cartas do período surrealista")




sábado, 2 de junho de 2012

ARTAUD !!!

De setembro de 1937 até hoje eu fui preso e encarcerado na Irlanda, deportado para França, internado no Havre, transferido do Harvre para Rouen e de Rouen para o asilo de Sainte Anne em Paris , do asilo de Sainte Anne para o Asilo de Ville Évrard e do Asilo de Ville Évrard para o Asilo de Chezal-Benoit e do Asilo de Chezal-Benoit para o hospital psiquiátrico de Rodez. Ambulâncias, Casas de Saúde, Asilos, Camisas de Força, Prisões, Eletrochoques. Eu venho do nada total e absoluto de mim mesmo.

eu acho que há na terra homens maus que querem o reino do mal e que para isso estão organizados em seitas e que pelo exercício das suas abominações e de seus crimes mantêm a vida na baixeza, no ódio, na guerra, no desespero e na ignomínia.

Sinto repulsa pela vida, porque percebo que vivemos num mundo onde nada é poupado e onde qualquer coisa pode ser ridicularizada e acusada de delirante, dependendo do estado de espírito do momento e do inconsciente do acusador. Minha historia é de uma iniquidade sem nome e um crime que eles não querem permitir que vocês vejam. Sofro de uma terrível doença do espírito. Meu o pensamento me abandona em todos os níveis, desde o simples fato de pensar e até sua materialização nas palavras. Palavras, formação de frases, direções interiores do pensamento, simples reações do espírito; estou na procura constante do meu ser intelectual.

Cheguei ao ponto em que não sinto mais as idéias como idéias, como o reencontro das coisas espirituais, mas apenas como uma simples reunião de objetos. Eu não sinto mais as idéias, não as vejo mais, não tenho mais o poder de ser sacudido por elas, e talvez seja por isso que eu as deixo passar por mim sem reconhecê-las. Meu núcleo de consciência se rompeu. Perdi o sentimento do espírito, daquilo que é pensável, ou então o pensável em mim rodopia, como um sistema absolutamente solto, depois volta à sua sombra.

Mas no meio dessa miséria sem nome, ainda existe lugar para o orgulho, que possui também um aspecto de consciência. É, se quisermos o conhecimento pelo vazio, uma espécie de grito abafado que em vez de subir, desce. Meu espírito está aberto pelo ventre e é por baixo que ele reúne uma sombria e intraduzível ciência, cheia de marés subterrâneas, de edifícios côncavos, de uma agitação congelada.

Cheguei ao ponto em que não toco mais na vida, mas tenho em mim todos os apetites e o desejo insistente do ser. Não tenho senão uma ocupação, me refazer. Eu me conheço e isso me basta, e isso deve bastar, me conheço porque me assisto, eu assisto à Antonin Artaud.

Ponho o dedo no lugar exato da falha, do escorregão inconfessado. Sou aquele que melhor sentiu a pertubação espantosa da própria língua nas suas relações com o pensamento. Eu sou aquele que melhor marcou o minuto dos seus mais íntimos, dos seus mais insuspeitáveis deslizamentos.

Na verdade, eu me perco no meu pensamento como se sonha e volto repentinamente ao pensamento. Eu sou aquele que conhece os meandros da perda.
Quando eu me pensa, meu pensamento se procura no éter de um novo espaço. Estou na lua, como as outras pessoas estão na sua janela.Participo da gravitação planetária nas falhas do meu espírito. Eu escolhi o domínio da dor e da sombra, como outros escolheram o do brilho e o do sucesso. Não trabalho na dimensão de um espaço qualquer. Trabalho na única dimensão.

A vida vai acontecer, os acontecimentos vão se desenrolar, os conflitos espirituais vão se resolver, e eu não vou participar. Não tenho nada a esperar nem do lado físico, nem do lado moral. Para mim somente a dor eterna e a sombra, a noite da alma e não tenho voz para gritar.

Antonin Artaud. 

O bebedor de Absinto- Viktor Oliva (1861-1928)


sexta-feira, 1 de junho de 2012

ARTAUD !!

O mundo sempre foi dividido em 2 (duas) Partes: a dos feiticeiros e a dos enfeitiçados.
Existe uma velha história de que todos falam, mas só falam para sí mesmos, e ninguém fala nela publicamente, embora aconteça publicamente o tempo todo, na vida normal, mas que ninguém, por causa de uma nojenta hipocresia geral, quer confessar que a percebeu, viu e viveu.

É a história de um enfeitiçamento geral da qual todos participam em maior ou menor grau, mas sempre fingindo nada saber e tentando esconder sua participação seja com o inconsciente, com o subconsciente e principalmente com toda sua consciência.

A finalidade desse enfeitiçamento é sustar uma ação que eu iniciei há anos e que consiste em fazer com que todos abandonem esse mundo fedorento, em acabar com esse mundo fedorento.

Se fui internado e mantido em confinamento durante 8 anos, esse é o resultado de uma má vontade geral que procura impedir de qualquer  modo que o Sr. Antonin Artaud, escritor e poeta, possa realizar na vida as idéias que proclama em seus poemas, porque eles sabem que o Sr. Antonin Artaud tem meios de agir que devem ser barrados, quando ele, junto com algumas almas que o amam, quiser sair desse mundo servil, de uma burrice asfixiante, tanto para ele como para os demais. As pessoas são idiotas. A literatura esta esvaziada. Não existe mais nada nem ninguém, a alma é insana, não existe mais amor, nem ódio, todos os corpos estão saciados, as consciências resignadas. Não existe mais nem mesmo aquela inquietação que penetra no vazio dos ossos, só existe uma enorme satisfação de inertes almas bovinas, escravas da estupidez que as oprime e com a qual copulam sem parar, noite e dia, escravos como eu que tentam manifestar seu desespero contra uma vida conduzida por um bando de criaturas insípidas que querem nos impor seu ódio contra a poesia, seu amor pela estupidez burguesa num mundo inteiramente aburguesado, com todo esse ronronar verbal de soviets, anarquia, comunismo, socialismo, radicalismo, repúblicas, monarquias, igrejas, ritos, relacionamentos, controles, câmbio negro, resistência. Esse mundo que apenas sobrevive a cada dia que passa, e a cada dia a alma também é chamada para finalmente nascer e vir a ser. Nada disso é motivo para me fazerem passar por louco, a fim de se livrar de mim e me adormecer com eletrochoques para que assim eu perca a memória medular da minha energia. Sei que tudo isso é pessoal e não interessa a ningúem, porque  as memórias dos poetas mortos são lidas, mas para os poetas vivos não mandam sequer uma xícara de café ou um pouco de ópio para reconfortá-los. Eu tinha um bastão. Esse bastão servia para castigar os maus espíritos (eu os adoro, mas mesmo assim eu sento o pau neles). Isso não adianta de nada, porque depois da surra eles voltam mais fortes ainda.

Eu tinha um bastão e o tinha levado comigo para a Irlanda a fim de encontrar os vestigios da Antiga Cultura dos Celtas que ainda poderiam existir por lá.

Antonin Artaud.

ARTAUD!


Quem eu sou?
De onde venho?
Sou Antonin Artaud
e basta que eu o diga
Como só eu sei dizer
e imediatamente
hão de ver meu corpo
atual,
voar em pedaços e se juntar
sob dez mil aspectos
diversos.
Um novo corpo
no qual nunca mais
poderão me esquecer

Eu, Antonin Artaud, sou meu filho,
meu pai,
minha mãe
e eu mesmo.
Eu represento Antonin Artaud!
Estou sempre morto
Mas um vivo morto,
Um morto vivo.
Sempre um morto
Sempre um vivo.
A tragédia em cena já não me basta.
Quero transporta-la para minha vida.

Eu represento totalmente a minha vida.
Onde as pessoas procuram criar obras de arte, eu pretendo mostrar o meu espírito. Não concebo uma obra de arte dissociada da vida.
Eu, o senhor Antonin Artaud, nascido em Marseille no dia 4 de setembro de 1896, eu sou Satã e sou Deus, e pouco me importa a Virgem Maria.


Antonin Artaud

terça-feira, 22 de maio de 2012

Maria grita sob minha janela seu nome indecifrável em uma voz de Marge Simpson histérica e, às sete e quarenta e três da manhã, eu começo a criar um vínculo com ela. Acordar cedo me dá vontade de usar drogas, não é mais como antigamente. Além disso, o tempo demora mais a passar e eu não consigo fazer nada neste exagero de tempo. Como Maria, também os carros passam lá fora. Esse é o som ambiente e é a trilha sonora, uma mesma trilha sonora circular se passa para todas as cenas dos moradores desse prédio amarelo-mijo, e do pequeno da frente também. Eu precisei afinar minhas fibras nessa mesma vibração por uma questão de adaptação voluntária, por uma vida mais harmônica ( juro que descobri muita paz em São Paulo! Mais do que nas montanhas, depois de vinte e tantos anos, quem diria... tem gente que se afina mais com buzinas, motores. Tem gente que não. Eu estou na primeira opção). Em relação aos transeuntes, me sinto como um rato. Não por evitar exposição, mas por tentar me manter escondida, o que não é a mesma coisa, de forma alguma, neste caso. E esse "vir-a-ser" rato é uma sensação das melhores dentre as que descobri estando careta. Algumas vezes parece que estou em um aquário, para ser observada por quem quiser. Isso nunca foi bom. Mantenho as janelas sujas pra evitar que se veja com clareza, da rua, algo além da fachada. Na parede o urso ainda cheira o gato apavorado. Me mantenho passiva, morro de sono. Morro . É cedo e eles todos dormem, ou fodem (os bons moradores dos Jardins, eu quis dizer).

domingo, 15 de abril de 2012

Primeira Aversão.





Sempre começa com a gola do casaco, e as mãos dele nela (para não ser tão descarado o estrangulamento, talvez). Eu quase quebro alguma das suas costelas. Certa vez foi algum ponto q doeu muito porque seus gritos foram altos. Pensei no pulmão perfurado, em morte e, bêbada de mais para lembrar da ordem dos números da emergência, fui abraça-lo por que era a única coisa a se fazer e ele me lançou a uns três metros de distância; coisa complicada de se executar quando se tem uma costela quebrada. Foi então, de certa forma, um alívio. E depois como de costume as malas fora. E as ligações, ligações, ligações...Merda de ligações! - Seu filho da puta (...volta pra casa)! Volta pra merda que é sua vida sem mim! (Volta pra merda que é nossa vida juntos!).
 
E quando ele volta é sempre diferente. Arrogante ou derrotado, chorando como um filho da puta desgraçado. O que nunca muda nas voltas são suas mentiras e meus abraços pedindo pra que nunca mais vá embora, e que nunca mais me solte dos seus braços, pro resto dos nossos dias, dos nossos minutos , segundos. Até quase quebrar a próxima ou mesma costela, e isso é sempre breve de mais.



Lá Lach





sexta-feira, 20 de janeiro de 2012