sábado, 2 de junho de 2012

ARTAUD !!!

De setembro de 1937 até hoje eu fui preso e encarcerado na Irlanda, deportado para França, internado no Havre, transferido do Harvre para Rouen e de Rouen para o asilo de Sainte Anne em Paris , do asilo de Sainte Anne para o Asilo de Ville Évrard e do Asilo de Ville Évrard para o Asilo de Chezal-Benoit e do Asilo de Chezal-Benoit para o hospital psiquiátrico de Rodez. Ambulâncias, Casas de Saúde, Asilos, Camisas de Força, Prisões, Eletrochoques. Eu venho do nada total e absoluto de mim mesmo.

eu acho que há na terra homens maus que querem o reino do mal e que para isso estão organizados em seitas e que pelo exercício das suas abominações e de seus crimes mantêm a vida na baixeza, no ódio, na guerra, no desespero e na ignomínia.

Sinto repulsa pela vida, porque percebo que vivemos num mundo onde nada é poupado e onde qualquer coisa pode ser ridicularizada e acusada de delirante, dependendo do estado de espírito do momento e do inconsciente do acusador. Minha historia é de uma iniquidade sem nome e um crime que eles não querem permitir que vocês vejam. Sofro de uma terrível doença do espírito. Meu o pensamento me abandona em todos os níveis, desde o simples fato de pensar e até sua materialização nas palavras. Palavras, formação de frases, direções interiores do pensamento, simples reações do espírito; estou na procura constante do meu ser intelectual.

Cheguei ao ponto em que não sinto mais as idéias como idéias, como o reencontro das coisas espirituais, mas apenas como uma simples reunião de objetos. Eu não sinto mais as idéias, não as vejo mais, não tenho mais o poder de ser sacudido por elas, e talvez seja por isso que eu as deixo passar por mim sem reconhecê-las. Meu núcleo de consciência se rompeu. Perdi o sentimento do espírito, daquilo que é pensável, ou então o pensável em mim rodopia, como um sistema absolutamente solto, depois volta à sua sombra.

Mas no meio dessa miséria sem nome, ainda existe lugar para o orgulho, que possui também um aspecto de consciência. É, se quisermos o conhecimento pelo vazio, uma espécie de grito abafado que em vez de subir, desce. Meu espírito está aberto pelo ventre e é por baixo que ele reúne uma sombria e intraduzível ciência, cheia de marés subterrâneas, de edifícios côncavos, de uma agitação congelada.

Cheguei ao ponto em que não toco mais na vida, mas tenho em mim todos os apetites e o desejo insistente do ser. Não tenho senão uma ocupação, me refazer. Eu me conheço e isso me basta, e isso deve bastar, me conheço porque me assisto, eu assisto à Antonin Artaud.

Ponho o dedo no lugar exato da falha, do escorregão inconfessado. Sou aquele que melhor sentiu a pertubação espantosa da própria língua nas suas relações com o pensamento. Eu sou aquele que melhor marcou o minuto dos seus mais íntimos, dos seus mais insuspeitáveis deslizamentos.

Na verdade, eu me perco no meu pensamento como se sonha e volto repentinamente ao pensamento. Eu sou aquele que conhece os meandros da perda.
Quando eu me pensa, meu pensamento se procura no éter de um novo espaço. Estou na lua, como as outras pessoas estão na sua janela.Participo da gravitação planetária nas falhas do meu espírito. Eu escolhi o domínio da dor e da sombra, como outros escolheram o do brilho e o do sucesso. Não trabalho na dimensão de um espaço qualquer. Trabalho na única dimensão.

A vida vai acontecer, os acontecimentos vão se desenrolar, os conflitos espirituais vão se resolver, e eu não vou participar. Não tenho nada a esperar nem do lado físico, nem do lado moral. Para mim somente a dor eterna e a sombra, a noite da alma e não tenho voz para gritar.

Antonin Artaud. 

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